Leitor, para poder ter pleno entendimento da análise, deverá ter conhecimento razoável do inglês. Caso não possua, recorra a um tradutor online ou afins.

A tradução da terminologia da obra variará conforme a fonte de onde fora assistido, portanto, cabe a interpretação do leitor compreender as definições.

Esta é uma análise de posicionamento empírico. Relações pessoais com crenças religiosas, fatos históricos ou posicionamentos políticos-sociais são irrelevantes.

Este artigo é uma análise crítica, em razão disso contém spoilers. As abas de spoiler são meramente colocadas para organização.


As raízes do atual "romance feminino" nipônico se estendem ao longo do século XX percorrendo vanguardistas como Yoshiya Nobuko, partindo de modelos narrativos "classe S", ganhando inspirações nos musicais de Takarazuka Kagekidan e se concretizando na Showa 24' (Hana no Nijūyo-nen Gumi). Incorporou congêneres do romance em roupagens mais diretas, shoujo-ai, ou mais indiretas, classe S. Estendeu-se pelo erotismo mediante ao yuri, que viria a se popularizar como um termo abrangedor de toda a interação lésbica. Gerando um expansivo nicho pela indústria e originando outras ramificações.
Nas últimas duas décadas, em certa porção do público otaku, fora cultivado um fetichismo com o shoujo-ai, fluindo nos criadores de novels, mangás e animações. Juntamente a padrões estruturais que perduraram pela história sem pleno aprimoramento, esse sentimento, potencializado pelo movimento moe, acabou banalizando muito conteúdo do gênero, fortificando fórmulas e barreiras ao seu redor.
Em 70' e 80' a Showa 24' revoluciona a mangaografia. Naquele período, surge a dupla Ikeda (mangaká/criadora original) e Dezaki com adaptações para anime que elevariam esses títulos a um novo patamar. Em 91' os mesmos criam um marco industrial. Em 97', a Be-Papas desconstrói fórmulas e ergue um novo ícone no âmbito que se tornaria fonte de influência para gerações futuras. Então, em 2015, a mente por trás de Utena retorna junto de sua trupe para edificar uma nova revolução em prol de derrubar os paradigmas vigentes sobre o shoujo-ai com Yuri Kuma Arashi.

Dicôtomia

As a creator it’s easy to fall into the hole of making a work inside that narrow field of relatability, making it into a nice story, adding lots of nice people. And so these nice things continue to expand within the work. I’d rather make something like a deadly poisonous manju. I like things where it’s covered in a sweet coating but when you eat it, the poison inside slowly sinks in. When tasting this poison, it tastes sweet and is quite addictive. I like this sort of thing.
– Kunihiko, Ikuhara

Baseando-se nesse pensamento o diretor imergiu suas criações em uma estilização atrativa, algo de seu agrado pessoal, adaptado à estética do período em questão. Enquanto, em seus âmagos, exalavam uma natureza de poesia e imoralidade. Criando uma dualidade aparente, porém, destrutiva com as correntes contemporâneas.
Tal fator é evidenciado logo no nome "Yuri Kuma Arashi", que significa Lírio Urso Tempestade (Lily Bear Storm), ou, em outras palavras, "Lésbicas Ursos Tempestade", devido à terminologia que coloca "yuri" como um termo abrangedor de toda a interação lésbica. Espelhando a temática homossexual, os ursos "moes" (divisão de raças) e o grupo segregador denominado Tempestade Invisível (Invisible Storm).
Indo além de um simples nome, Yurikuma, traz pautas socioculturais pouco desenvolvidas por títulos do nicho. Uma sociedade heteronormativa que pune todos aqueles que fogem das regras, exclusão grupal ou o extremo do polo opositor, o individualismo egoísta. Expande a conceitualização de amor e diversos relacionamentos interpessoais frequentemente retratadas de maneira pouco inventiva. Utiliza o moe, yuri e o erotismo em prol de analogias ligadas a objetivação, acima dos clichês e frivolidades.
A saliência de tais pontos frente a outros animes é tanta que resultou em uma difícil aceitação da obra entre uma parcela dos espectadores. Não é necessário ir adiante da abertura para notar gemidos sugestivos a orgasmos... A priore um visível estapafurdismo, mas, que afrente se prova bem planejado.

If I were to say it in a self-hating sort of way, I flow in the complete opposite direction to that of society...

Yurikuma Arashi also had this sort of nuance, as there were a lot of details that could be taken and criticised. So there is always the conflict inside me that I may get very seriously criticised for the work... To make these sorts of works at whatever the cost; it must be a habit of mine. If I don’t do this, then I don’t feel like I’m making anything.
– Kunihiko, Ikuhara

Inspirações
A construção da figura feminina sempre foi muito recorrente nas criações de Ikuhara, sensuais e de identidade forte, protagonizando as estórias e recebendo certo aprofundamento psicológico. Parte se deve a ele ser o herdeiro número um do estilo Dezakiano, o qual valorizava caracterizações vigorosas, ao mesmo tempo, detendo influências da fortificação feminil advinda da 24nen Gumi (nomeadamente Riyoko Ikeda) e de Eiichi Yamamoto (Kanashimi no Belladonna). Yuri Kuma incarna intensamente essa marca e fomenta uma refinação dos arquétipos habituais de personagens deste âmbito.

"I tend to like girls who are mean but has [sic.] sexual tones..."
– Kunihiko, Ikuhara

Cineastas também atraíram os olhares de Ikuni (assim chamado pelos fãs e até pelo próprio), demonstrando admiração por Shūji Terayama, David Lynch, Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock. Agora seria vez do cinema Italiano mostrar as caras com Dario Argento.
As semelhanças com o clássico Suspiria não são pequenas, a série traz os característicos horror cromático e design surrealista do longa para dentro de sua composição.

Suspiria












The Shining




Psycho




Suas produções foram sempre integradas por profissionais de habilidade, vários deles desconhecidos dentro da indústria ou participando da primeira animação na carreira. Comprovando ser um autêntico descobridor de talentos e alguém de ótimos contatos. Em Yuri Kuma o método se repete, artistas antes revelados em Utena e Penguindrum, como Chieko Nakamura, Masahiro Aizawa e Tomohiro Furukawa retornam para colaborar.
Entretanto, a decorrência mais interessante da grande rede artística de Ikuhara foi a relação com a Shaft, onde aspectos e ícones formadores do estúdio advinham da produção de Utena, tal-qualmente, fontes criativas como Osamu Dezaki e a French New Wave. Então, futuramente o diretor viria a usar técnicas e profissionais aperfeiçoados pelo estúdio para produzir suas próprias obras, dando luz a um glorioso vínculo.

Reflexão
Em setembro de 2017, durante uma entrevista, o autor destaca um pensamento que se encaixaria em seu distinto modus operandi e sintetiza um dos principais ideais de Yurikuma.

I am also always aware of what we call desire. In fact I have the word ‘Desire’ set as my lockscreen wallpaper. This is because, it feels like you might forget that feeling of desire if things are not clear. People who move forward with desire, whatever they do, are foolish, so I want people not to forget this foolishness. It’s this balance, isn’t it? Losing desire will cause people to worry and wonder why they are living at all, but if you strive forward with desire it will always lead you to hurt someone, or overdo something. But then, if you were to deny that foolishness, it would become a lie.
Even when watching fictional stories, I don’t quite understand works with stories that talk about what’s right or wrong. Stories about what’s right are always relative, so will change depending on where you stand. The characters I can relate to are those who are clearly in the wrong.
– Kunihiko, Ikuhara

Toda a estrutura reflexiva da série tem como base esse dilema, o intermédio entre ação racional e a ação passional.

Relação Social

Juízes

Inicialmente são apresentados três juízes de um tribunal equânime Sexy, Cool e Beauty. Ao longo dos episódios essas figuras iriam julgar a autenticidade do amor de Ursas e Humanos.
Sexy representa a idealização desse conceito exposto por Ikuni, o equilíbrio de dois polos. Enquanto, Cool e Beauty são respectivamente a incarnação da ação lógica e da ação passional. Cool segue as leis de Lady Ursaria, condena qualquer ato de levianidade ou egocentrismo. Beauty, por outro lado, é levado pela paixão, positivista, reverencia a beleza e as muitas formas de amar.



Ex.:
Não há uma nítida razão por trás, logo Cool manifesta indignação, assim como, os julgadores estão fora de suas formas antropomórficas (Ursa + Humano) que simboliza a união das espécies (portanto, um corpo acima das obstruções sociais). No entanto, para Beauty isto não é um problema, pois, exalta beleza.
Uma discrepância interessante que encaixa-se na dualidade "visual e essência" que o anime opera, fazendo uso de uma estética "moe" comum para idealizar algo além.




Amor Degenerado

O autor define como o "legítimo amor" aquele que aceita sua natureza de interesses, mas, que é sobretudo altruísta. Devem-se abandonar as amarras pessoais e transgredir os bloqueios sociais para alcança-lo.

"... it feels like you might forget that feeling of desire if things are not clear."

"Losing desire will cause people to worry and wonder why they are living at all..."

A partir do momento que o indivíduo abdica do bel-prazer (ação passional) ele passa a trilhar uma vida sem rumo, tornando-se suscetível ao meio ou preso ao passado.
Kureha não é capaz de abandonar a infância com sua mãe nem a paixão por Sumika, então impede que novas pessoas entrem em sua vida.

Próxima de ceder ao agrupamento...

É surpreendia por uma tentativa de destruí-la que concretiza sua exclusão.




"People who move forward with desire, whatever they do, are foolish..."

... if you strive forward with desire it will always lead you to hurt someone, or overdo something.

Quando somente movido pelo desejo (ação passional), o orgulho, a volúpia e o egoísmo passam a conduzir o comportamento, consumando o individualismo, o qual prejudica a si e aos demais a volta.
Ginko queria Kureha apenas para ela, seu amor passa a ser obsessivo e suas ações, levianas. Levando-a à não impedir o assassinato de Sumika e a posteriormente desejar a morte de Kureha.


A imoderada vontade própria; individualidade leva a autodestruição.

Isto é, categoricamente, seguir desprovido do desejo pessoal ou permitir que o desejo tome a razão leva a deterioração de si e da relação social. Seja ela uma relação amorosa, amigável ou familiar. Contextualizando, "os mesmos não serão capazes de ascender ao verdadeiro amor e não encontrarão o beijo prometido"








Inerte

Mais do que os deturpados por suas razões e desejos, o incapaz de se renovar, — ou, de modo abrangente, reacionário — está fadado a corrupção.





Yurika personifica a degeneração da relação social (ou amor), observam-se todas essas problematizações anteriormente citadas enraizadas nela.

Obsessiva; egocêntrica.





Sustenta falsas razões; ideias sem fundamento.





Presa ao passado e a satisfações frívolas.






Grupo e Estrutura Social

O mundo apresentado é composto por duas etnias, os Ursas e os Humanos, que se encontram em uma incessável guerra. Os polos se encontram divididos por diferenças éticas e biológicas, no entanto, uma "enorme" muralha física que os corta, denominada Divisão das Espécies, serve como um bloqueio para que nenhum membro das espécies entre em contato com a outra.

A Muralha

Já haviam muitos anos desde que Ursaria colidiu com à terra até o ponto em que a narrativa se localiza na obra, porém, a Divisão das Espécies ainda estava incompleta. Constantemente é reforçado que a dita cuja é intangível, contudo, ela se prova tão tangível quanto uma porta aberta¹, sem mencionar a existência de um portal que confere a passagem àqueles que realmente desejarem².
A verdadeira função desse elemento diegético é metafórica, objetiva dizer que as barreiras sociais embora "grandiosas" são plenamente transgredíveis.

¹

O fato da entrada que permite o contato entre Ursas e Humanos estar sobre um jardim de lírios (lírio = yuri = lésbicas) é uma simbologia que auxilia essa sacada.
²

Lei Natural

Apesar de serem povos distintos em conflito, ambos seguem com uma mesma prática em comum, a exclusão social fundada em uma doutrina regimentar. Uma genuína fábrica de cidadãos que descarta tudo aquilo que saiu dos padrões.






A finalidade reflexiva, novamente, é demonstrar que o amor é a força dessas irregularidades. Ginko fora salva da morte, do descarte, por um ato de compaixão de Kureha. Futuramente, Ginko e Lulu viriam a salvar Kureha igualmente (especificamente no episódio 3, quando Kureha é incapaz de acertar sozinha Mitsuko, porque apenas juntas elas poderiam vencer as massas, a Invisible Storm/Phantom Wuthering). Enquanto, acreditarem nesse laço não irão perecer frente a supressão, um ideal derivado do conceito de fraternidade pregado na Revolução Francesa, que é reforçado na casa de Kureha.

Diga-se de passagem, um tema frequentemente abordado pelo criador, o utópico contrastando com o verossímil, faz-se presente nesta idealização de amor, ao assumir uma roupagem fantasiosa, quando, na verdade, é frio em sua essência. Afinal, trata-se de um romantista, melodramático, aficionado pela metalinguagem.

Amor é desejo; fraternidade; força motriz. Através dele o indivíduo ganha resiliência para resistir as adversidades emergentes.








Religião

Uma manifestação desses regimes na sociedade Ursa é brevemente exibida em flashbacks do passado de Ginko, aonde ela é isolada e atormentada pelos demais, posteriormente sendo expulsa por amar uma humana (por ser gay). A partir de alegorias visuais e conversativas pode-se notar que se trata de um culto a Lady Ursaria. Formando mais uma das várias críticas da obra.






Na música também há evidências religiosas que interligam a ascensão do amor (nas cenas de transformações no tribunal) e a Lady Kumaria (Lady Ursaria). Refere-se a OST Yuri, Shounin!, uma versão alternativa da famosa canção Ave Maria.
A analogia aqui é o fato do nome da entidade ser uma junção de Kuma + Maria, associando com a santa do cristianismo. O que torna o culto referido inicialmente um antro corrupto, pois, Kumaria é um símbolo do legítimo amor, independente de raças e gêneros, e foi exatamente esse grupo o qual baniu Ginko 'por amar uma humana (por ser gay).
Ou seja, a elevação divina não é restrita a fieis, mas, sim, aos ditos seres autênticos.

Grupalidade

Se na etnia Ursa a religião exercia papel regimental, no lado Humano temos a grupalidade formada pelas membras da escola feminina. Todos os que fogem da regulamentação empregada são excluídos ou eliminados (literalmente), pois, os Humanos repugnam tudo aquilo que não obedece os padrões e as leis vigentes, como Ursas e espíritos livres.
Tal decorrência é vivida por Kureha e Sumica e, de maneira ampla, Lulu e Ginko também, — deve-se lembrar que os Ursas são figuras de linguagem flexíveis, hora referenciando minorias contemporâneas, hora definições mais abrangentes, todavia, em síntese, são o reflexo do eterno conflito social advindo da incapacidade de harmonização —.

Viver em sociedade é estar continuamente sendo julgado






seja para sua evolução

ou destruição

O tribunal forçava àquele que ansiava pelo verdadeiro amor a escavar seu âmago sendo seu próprio juiz. Em contrapartida, a Invisible Storm, julgava e sentenciava outros em seu Purging Ritual, incarnando a deturpação das relações sociais. Não era para menos que Yurika, pináculo da degeneração, seria a representante do colégio.
Nem ao menos os dirigentes estariam blindados do descarte, uma consequência inevitável para esses que se sustentam em relações frágeis como um idealismo utilitarista de amizade. Constantemente os líderes do movimento são alterados e diferença alguma faz, pois, tudo é uma questão de conveniência.

Incontáveis vezes relacionadas com o grupo, as gaivotas, surgem em metáforas visuais e comportamentais durantes os episódios. Seu objetivo é interligar a conduta grupalista dos humanos com uma figura animalesca. Assim como a Invisible Storm, essas aves têm como costume andar em bando e agir de modo igual, muitas vezes voando em círculos no mesmo lugar, tal e qual um reacionarista.


Alusões com seus hábitos






Clássicos discursos de amizade que brincam com essa associação e compõem conjuntamente a demais artifícios uma quebra dos arquétipos convencionais dessa reflexão.





Curiosidade: dentre as tantas influências exibidas, a icônica imagem da metamorfose de lírios e pombos é baseada na gravura Céu e Água I de M.C. Escher.



Lesbianismo

As escolas femininas estão presentes na educação japonesa há décadas, tiveram notável papel no desenvolvimento da atual sociedade e sua disciplina impactou em inúmeras áreas, como no surgimento do classe S e, consequentemente, no shoujo-ai. Embora o vínculo homoafetivo fora repreendido, a sua manifestação tornou-se recorrente nessas instituições e frequentemente veio a ser abordado nas artes. Yurikuma externiza essa pauta correlacionando-a com as várias problematizações sociais apresentadas pela narrativa.

Uma reação comum a proibição de algo já implantado ou de origem consequente é o ato da prática secreta¹. Muitas estudantes desses colégios, temendo a censura, adotavam tal hábito, o qual configura uma decorrência da privação do desejo advinda de um fundamentalismo regimental.

Prática secreta¹

Atitude hipócrita. Até os que condenam este afeto, partilham deste sentimento. Continuam presos as amarras morais, incapazes de se desprender.

Introspecção e Autoaceitação

No final de tudo, sobre toda a putridez que a sociedade pode carregar, uma única muralha segue inexpugnável, a qual somente o próprio indivíduo é capaz de derrubar, o seu eu.
Pessoas mudam pessoas, porém, apenas aqueles auto condicionados a transformação podem ser alterados.
O meio poderá ser corrupto, as relações sociais poderão assumir naturezas degeneradas e seja aonde for interminavelmente irão lhe julgar, contudo, jamais se deve abandonar a genuína vontade e a capacidade de se evoluir essencialmente. Porque o ambiente não será modificado enquanto o sujeito não for.


Uma valorização da relação social. É, também, quando Ginko finalmente alcança o equilíbrio de seu desejo por intermédio da introspecção. Compreendendo que o amor é altruísta; está além da pura satisfação pessoal.







Sendo assim, apta a revolucionar a si mesma e atingir a harmonia intra/interpessoal.





Tal e qual Ginko, Kureha conquista o mesmo estado quando chega a conclusão do que realmente desejava.






Técnica

Apesar da complexa metalinguagem que toma os holofotes, o anime demonstra competência em sua desenvoltura geral, guiando uma ótima execução de objetivação.
Vários métodos marcantes do autor se fazem presentes novamente, alguns soando a reciclagem, como as tradicionais batalhas no terraço, outros efetivamente aprimorados. Os usos de bordão, leitmotiv e stock footage mostram-se mais prudentes do que nunca, empregam identidade as cenas sem cair em desmedidas repetições.

Narrações alternativas regularmente surgem para atribuir excentricidade ao enredo, sons peculiares invadem as cenas — KUMA SHOCK! —, figurantes assumem papel de narradores de boatos, personagens falam em terceira pessoa visando indiretamente esclarecer algo ao espectador ou volta e meia viram narradores. Entretanto, essa última, nem sempre atua com total eficiência, a expositividade forja o segundo gume desta lâmina. Certos pontos não necessitavam ser expostos de tal modo, já que a reflexão prova-se bastante clara, caberia ao espectador a suma interpretação.
Já entrando em trabalho de som, nem sequer o toque dos smartphones escapou da idiossincrasia de Ikuhara, Kuma Tagigigi

As OSTs são bem arranjada, carregam a essência da série e operam como eficazes veículos de sentimento, o que levou a formação de uma ótima atmosfera durante os episódios. Todavia, são os esdrúxulos efeitos sonoros e trejeitos vocais que acabam ganhando maior destaque, por conta de sua incisividade, gau gau.

Para todos os efeitos, um tópico que não deve deixar de ser sublinhado é o da equipe de ursos; a staff de especialista em ursos. Indispensável à produção.

Katsunori Shibata, indubitavelmente, fez um ótimo trabalho como bear dance.

Em igual patamar de excelência, Yuri Nakajima, como bear animation director

Trabalho Visual

Urge por um subtópico, visto que é o aspecto mais notável em sua execução. À parte do desempenho independente, a composição visual, exerce muito bem suas funções alegóricas, finalizando o último condutor analógico aqui listado. Numerosas alegorias visuais preenchem as cenas tornando-as densas em seu conteúdo simultâneo.

Clássica exploração de floriografia do diretor, (lírio = yuri = lésbicas) a Intolerância com aqueles que são "irregulares"


Símbolo do amor degenerado; daquele cego pelo desejo.

Triângulos rosas e triângulos pretos, personificações do orgulho gay contemporâneo e, bem como, representavam o aprisionamento da homossexualidade durante o Nazismo.


A coloração é muito bem elaborada, utiliza com perspicácia nuances na composição. Como pode-se notar no quarto de Kureha, nas tonalidades de rosa e vermelho, de mesma maneira nas cortinas e no papel de paredes verdes.

Harmonia e contraste também são bastante valorizados, constituindo belíssimos frames, como observa-se abaixo.


Luz e sombra igualmente demonstram ótimos exemplos, construindo a atmosfera do ambiente e auxiliando a fotografia em efeitos visuais (praticamente nada destacável é aplicado no character design, padrão contemporâneo).

Boa utilização de baixa luminosidade e contraponto luminoso na mise en scène

Seguindo surrealismo na estruturação, a iluminação entra em sincronia com o sentimento presente

Excelente aplicação de sombreamento no móvel, um corte repleto de substância.

Bons frames de impacto

Certamente dois outros elementos são evidenciados com distinção nos exemplos acima, são eles a cenografia e a iconografia, ambos de importância fundamental em sua desenvoltura.
Afora da citada anteriormente função metafórica dos veículos visuais, que se encaixa neste tópico, a iconografia, confere forte identidade. Não somente aplicada em noções básicas e fugazes, como as flores, estende-se para todo o design. Afinal, não seria só piada os cargos exclusivos para os ursos, uma escolha típica em produções com desenhos atípicos, a qual tem de ser analisada o resultado. No caso em questão, o produto foi figuras originais que caracterizam o título.
Quando se pensa em Yurikuma é razoável que evoque:

Ursos caricatos

Mel e amor

E claro, lírios

Quanto a cenografia, prova-se como mais um de seus distintos aspectos, sustenta uma frequente complexidade em sua estruturação ao mesmo tempo que conserva as marcantes arquiteturas antes usadas, uma união de herança e inovação. Com ênfase para o comportamento da câmera, que se posiciona com sagacidade pelo cenário salientando os objetos componentes.

Exemplos plenamente cabíveis da mise en scnène já podem ser averiguados nas amostras colocadas ao longo da análise. Aqui estão algumas descrições visuais específicas da pauta:


Posicionamentos arrojados que proporcionam boas perspectivas e valorizam seus elementos







Ótimo ponto de fuga e iluminação. Boa mise en scène


É necessário notar que, diante dos detalhes do trabalho visual, fica nítido que a escolha do character design e da estilização moe não é parte de uma postura simplória, porém, de um planejamento perspicaz, tal como fora discorrido no tópico da Dicotomia.
O real problema acaba ficando com as grossas inconsistências na animação dos personagens, o primeiro plano vira lugar de desleixo. Em contrapartida, o segundo plano recebe enorme cuidado. Todavia, esse fator é atenuado nas alternâncias de arte e estilo, que é, também, quando ocorrem as mais ilustres sequências.






Conclusão

Kunihiko Ikuhara novamente comprova sua audácia e ambiciosidade perante a mídia. Yuri Kuma Arashi é um marco para seu âmbito e contexto histórico. Pode não trazer tantas inovações quando situada em uma era de obras e autores que já exploraram com sagácia a "roupagem moe" e demais técnicas visuais. Entretanto, os seus diferenciais e refinamentos são evidentes. Um choque narratológico bem-sucedido, no entanto, não tanto reconhecido.

80 /100
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