Kaguya-hime no Monogatari, O que se leva da Vida

O texto contém spoilers, mesmo que estes não sejam de muita relevância no entendimento da obra, recomendo que tenha visto o anime antes, caso apenas queira uma recomendação... Veja o filme, eu garanto que não será igual a nada que você já tenha visto.
Para a organização das imagens dentro do texto foram usadas as abas de spoilers, clique nelas para abrir as imagens, elas são parte importante da análise.

Introdução

Uma preguiça, como disse seu amigo Hayao Miyazaki, havia reacordado, 9 anos e 5 bilhões de Ienes, muito tempo e muito dinheiro dizem alguns, entretanto esse foi o necessário para criar a maior obra de animação da década de 2010, quiçá do século XXI. A obra mais cara de toda a história midiática japonesa, Kaguya-hime no monogatari, do diretor Isao Takahata, nunca chegou a se pagar, mesmo com seu grande sucesso de vendas. Entretanto, dinheiro é dinheiro, arte é arte, ela é feita daquilo que necessita, e o resultado foi de uma grandiosidade inigualável, e o que faz desse anime tal ícone é o que será abordado nesta análise.

Do Japão Feudal aos Tempos Modernos

Taketori Monogatari, também conhecida como Kaguya-hime no monogatari, é uma história folclórica datada do século X, a mais antiga prosa japonesa que se tem relato. Narrada de boca a boca e escrita em pergaminhos por todo o Japão, sua importância no país é tão grande que duas das possíveis fontes do nome do monte Fuji vem dela. Sua adaptação por Isao Takahata buscou respeitar o máximo possível deste legado, tentando cumprir a maior parte do roteiro fidedignamente. Entretanto, seu objetivo não era fazer uma cópia animada de uma história tão velha, mas sim adaptá-la, criar sua versão, para isso alterações se fizeram necessárias. Uma das coisa introduzidas por ele é a sua interpretação, no original o motivo de Kaguya ter vindo à terra é incerto, algumas variações dizem ter sido um pecado cometido no Reino da Lua, outras que teria sido por uma promessa antiga, porém, nenhuma delas é certa. O diretor então introduz sua versão, ela teria descido ao mundo dos humanos por querer ver suas belezas, por ter ouvido sobre elas de um outro deus que já havia estado lá. Outro ponto alterado é o desenvolvimento da protagonista, para que o drama em torno dela seja mais eficiente.
À parte destes aspectos e dos detalhes adicionados para trazer renovação e profundidade à adaptação, muito é feito pensando no legado desse conto para a cultura do país. Opta-se por manter diversos elementos de caracterização clássicos utilizando mesmo pinturas antigas na elaboração de cenas, em sua composição, coloração, design, entre outras. Como pode ser visto abaixo:








Nota-se as referências diretas aos quadros e o uso de composição e coloração análogos aos clássicos, como o Yamato-e e o Ukyo-e. Resgatando, assim, a cultura nipônica tão defendida por muitos autores, principalmente pelo estúdio Ghibli, além disso, elas ajudam na contextualização da trama em seu período histórico.
O grande respeito pela cultura, entretanto, pode apresentar seus problemas. Adaptando fielmente um conto tão antigo acarretou problemas de roteiro, ter que lidar com os clichês presentes nele. Muitas das complicações, a fórmula de progressão, as mensagens, são bastante batidas e mesmo a própria releitura introduz novos, tornando ele o ponto mais fraco dessa construção.

Every Frame a Painting

Kaguya é sem dúvidas um marco visual para a animação. Seu estilo original chama atenção, principalmente por contrariar diversos outros muito difundidos, mesmo os utilizados dentro de seu estúdio. Quando perguntado sobre o assunto, Takahata diz que sempre quis utilizá-lo, principalmente depois de ter trabalhado com algo parecido em Tonari no Yamada-kun, com o artista Osamu Tanabe, que também é responsável pelo character design aqui. Ele diz também que, embora já tenha sido utilizado em outros trabalhos de animação em célula, essa técnica de desenho nunca foi profundamente explorada e que ele iria fazê-lo.
A influência histórica foi, provavelmente, o ponto-chave no interesse por esse estilo. Ele se baseia é em uma tradição centenária no Japão. O Sumi-e, conhecido também como pintura caligráfica ou ink wash, em inglês, é uma vertente de arte nipônica, de origem chinesa, que tem como princípio base a caligrafia, utilizando-se de linhas bastante ostensivas em tinta preta, chamada de Sumi. Masterizado ao longo dos séculos, ele influenciou diversas outras escolas, mesmo através de países ocidentais.
A caligrafia é datada anteriormente à cristo, tornou-se como arte na China durante a dinastia Tang e, após a adoção do budismo, foi levada ao arquipélago japonês no século XIV. Desenvolvido lá durante os séculos seguintes, misturou-se culturas já existentes, e mesmo à outros de origem européia, criando outras escolas como o Nanga e o Shijo.
Suas filosofias seguem muito da tradição zen e o minimalismo. Coisas como: mais pode ser expresso com menos; o uso de cores não deve ser exagerado; a essência é demonstrada com poucos detalhes; balanço, claridade, harmonia e simplicidade.



É comum em textos ver as características do Sumi-e presentes em Kaguya-hime serem confundidas com duas vertentes de arte ocidental, o minimalismo e o impressionismo. O minimalismo nasceu século XX, seu ideal era o de utilizar o mínimo necessário em seus trabalhos, porém, sem representar a realidade, simplesmente criar utilizando-se apenas do apelo estético, toda a interpretação seria feita pelo observador. Quanto ao impressionismo, ele surgiu no século XIX como uma forma de retratação do mundo que nos cerca sem o uso de linhas, com pinceladas fortes e evidentes, utilizando cores puras e tonalidades que representam bem iluminação, tentando passar uma abstração do real de maneira mais essencial do que havia sido feito anteriormente.







As semelhanças entre os estilos são notáveis, entretanto, tão são as diferenças, cada um bebe de fontes diferentes. Mesmo que o impressionismo tente captar a visão do artista, ele faz isso através de composições complexas, de diversas cores e iluminação, além de não usar linhas. Ainda que o minimalismo use paletas reduzidas e composição o menos complexas possíveis, não é seu objetivo a representação do mundo real. Em Kaguya-hime a influência é nipônica, Isao Takahata, um grande nacionalista, representa muito da cultura japonesa em suas animações, seja na técnica ou no tema, é muito mais cabível comparar, então, sua obra às vertentes de seu próprio país. Portanto, é mais prudente usar de base as ideias do Sumi-e, e suas influências, para destrinchar o visual do longa, seus motivos e objetivos. Mesmo que este não represente a versão purista do estilo, mas sim conceitos mais generalistas dele. Por comparação ele está mais próximo de algumas pinturas das escolas Nanga e Shijo.




Nota-se, com isso, que existe aqui um grande resgate histórico no uso desse traço, porém ele também possui um grande apelo estético, trazendo grande identidade às composições, sendo essa uma das grandes motivações que levaram à sua utilização. Ele ajuda, ainda, a criar a atmosfera de conto clássico e o impacto em diversas situações, principalmente nas feições caricatas dos personagens.
Ao animar esse traço surgem ainda outras características. Como por exemplo as “inconsistências”, que são consequência de um ideal do diretor. Para ele uma das coisas responsáveis pela falta de alma na animação moderna, é o polimento dos desenhos, o animador faz um trabalho melhor quando desenha com o coração, rapidamente, instintivamente. Mas ao fazer isso os quadros saem levemente diferentes dos anteriores, o que causa a sensação de tremido, que poderia se considerar como erro, mas aqui contribui para o aumento da dinâmica, à agregação de movimento. Esse desenhar com o espírito, essa liberdade criativa deu origem à cenas incríveis, as mais impactantes, em quesito de animação, de todo o longa.




Ambas sakugas encarnam o papel máximo dessa ideia na obra, a sensação de impacto e movimento só é obtida por conta do efeito esboçado. Linhas guiadas pelo sentimento, impacto criado pelo contraste, ambos extraídos do Sumi-e.
Além dessa, outra conduta muito perceptível extraída dele foi o minimalismo, presente grande maioria das cenas. Ambientes com poucos elementos e/ou vazios, usando de tonalidades frias e pouquíssimo saturadas, com nuance ao invés de contraste. São as duas formas principais pela qual isso é entregue, a composição do ambiente e a paleta, cada qual tem sua fonte de inspiração e motivação.
A simplicidade da mise en scène e as partes em branco vêm do conceito do uso do mínimo pelo máximo. Segundo ele é possível transmitir a essência das coisas apenas quando se usa a menor quantidade de elementos comunicativos para representá-lo. Isso se une à uma visão do Diretor, de que quando se retrata a realidade não é necessário descrevê-la em sua completude, por essa ser comum a todos, apenas indicações dela, e a menor quantidade possível, são o suficiente para trazê-la à mente do espectador, em seu íntimo. Em obras de fantasia, pelo contrário, a imagem só existe para o autor, por isso ele deve representá-la totalmente, pois a diegese é inerente à quem cria. Para chegar, dessa forma, ao âmago da coisa concreta, deve-se utilizar da experiência do interlocutor, evocando suas memórias através de mensagens inteligentes, estas que são mais ou menos efetivas dependendo da capacidade do artista. Essa filosofia aliada, principalmente, à dublagem, aos trejeitos e à animação, trazem o realismo tão perseguido pelo autor. Outro papel desempenhado por ela é o de trazer o foco ao primeiro plano da cena, onde estão os personagens ou outros componentes de maior importância no momento. Como por exemplo a cena abaixo.



Ela está para libertar o pássaro da gaiola, apresentando o simbolismo, um tanto batido por sinal, do pássaro que representa a protagonista em busca da liberdade, e do desapego que ela demonstra pela riqueza. O shot é bastante “simples”. No segundo plano apenas o papel em branco, uma árvore, o telhado com uma lanterna pendurada e outro telhado de outro prédio, todos em tons acinzentados, com baixíssima saturação. No primeiro plano se encontra a personagem, a gaiola e o pássaro, em completo destaque. O que está ao fundo é o mundo, seu aspecto é comum à todos, entretanto o que está à frente é o momento, o sentimento, que é inerente à obra.
A imagem acima destaca, também, um fator muito notável, o bom uso da paleta de cores. As cores frias e/ou pouco vibrantes, utilizadas para criar a atmosfera triste, e os fundos “incompletos”, são quebrados pelas cores mais fortes, principalmente as quentes, como o rosa e o vermelho. O resultado é a ampliação do efeito de realce do primeiro plano, chamando ainda mais atenção para o que é preciso. Além do mais, esteticamente, isso é muito inteligente, como quebra de constância na imagem. Para exemplificar a cena abaixo é interessante, embora isso seja utilizado durante boa parte do filme.



Ela ocorre durante o sonho da protagonista com seu antigo lar. Nela aparecem as cores frias de baixa saturação em quase toda a seu todo, dando o ar triste. No fundo incompleto e pouco detalhado há apenas a indicação de que a floresta continua. Vindo à frente está a menina, o componente mais chamativo, o rosa bastante avermelhado de sua roupa quebra a constância da gradação, como uma nota diferente e alta em uma música. Um tempero que agrega estética ao momento, mas que também realça a tristeza demonstrada na feição dela, por mostrá-la com tanta ênfase. Ainda mais à frente está o galho com botões, uma mensagem de que a floresta ainda não morreu, o botão marrom não é tão evidente quanto o rosa, mas ainda é visível pelo contraste de cores. Uma mensagem que não precisa de tanta atenção quanto os sentimentos da personagem.
Um trabalho muito diferente, embora de nível similar de qualidade, dos outros de Kazuo Oga, em geral. O diretor de arte é muito famoso pelos seus backgrounds no estúdio Ghibli, em animações como Tonari no Totoro, Sen to Chihiro no Kamikakushi, Mononoke-hime, entre outros. Neles se destacam a sua beleza, complexidade, naturalidade, paleta viva, com poucos contornos e valorização da cor em si. E então quase o seu oposto é feito em Kaguya-hime, backgrounds pouco detalhados, que apelam para a retratação parcial, paleta de baixa saturação e valorização dos contornos, para que se mesclem ao das pessoas e animais. Mesmo assim ele corresponde à sua fama, segundo Takahata, sem ele e Osamu Tanabe o longa jamais teria tamanha qualidade iconográfica.
Para resumir quase todos os atributos visuais que tornam esse anime o que ele é, a cena seguinte é ideal.



Ela começa com um chão frio preenchendo a tela toda, nele uma peça de roupa branca. A câmera anda e então outra peça branca cai, mais uma, essa vermelha, e, em sequência, um arco-íris de roupas toma o chão acinzentado. Elas gritam na tela: “ela está se livrando de suas roupas caras”. A cena segue com Kaguya correndo na rua cinza esverdeada, a animação com seu traço esboçado transmite movimento, pressa, raiva e desespero, ela tira todas suas roupas até sobrar apenas a peça mais simples, quase toda branca, com apenas um pedaço rosa remanescente, este que é tão recorrente que já faz parte da personalidade dela. Ela se destaca na tela, indo em direção ao ponto de fuga do quadro, a lua, rogando por ela, deixando para trás sua colorida riqueza, de um mundo que ela não desejou.

Kaguya

Existem várias linguagens úteis a uma obra midiática, essas podem, então, muito bem ser empregadas na criação de um personagem, o artista capaz é aquele que sabe utilizar suas ferramentas, e tal é Isao Takahata. Ele os constrói através de elementos de texto, como fala, ação e dramatização, visuais, como character design, animação, cenário e fotografia, e sonoros, como dublagem, sonoplastia e música. Tornando, assim, seu elenco um dos pontos fortes nesta trama fraca. Tendo em vista que Kaguya é o pilar fundamental da narrativa, era, sem dúvidas, necessário melhorar sua caracterização em relação à original, o diretor levou isso além, trazendo-a até o espectador, tocando-o em seu íntimo. Um dos primeiros pontos que refletem nessa melhora é o seu desenvolvimento.
Aparece em um broto de bambu uma boneca divina. Um velho senhor recolhe-a acreditando ser uma benção dos deuses. A boneca viva torna-se um bebê ao ser acordada e daí então segue se a progressão do tempo com o espectador acompanhando o crescimento dela, suas descobertas, alegrias e tristezas. O aspecto de contemplação nessa parte da trama é bastante ressaltado, a trilha sonora suave e alegre que combina instrumentos japoneses clássicos com ocidentais, ajuda a transmitir a sensação de paz e calmaria. Porém, mesmo em momentos belos os fundos brancos azulados dão o aspecto de tristeza e é durante uma cena feliz de brincadeira infantil que percebemos à que o filme veio. As crianças cantam a música Warabe Uta, a qual terá um tópico dedicado abaixo. Então Takenoko começa a cantar junto, entretanto canta uma letra diferente da música, com uma dublagem triste, uma letra igualmente, enquanto olha o horizonte cheio de vida. A dublagem aqui, e durante o resto, é responsável por muito da carga emocional. A dubladora, escolhida a dedo, conseguiu a vaga justamente pela sua melancolia na voz, dentre dezenas de candidatos, selecionada por um dos artistas mais rígidos neste quesito. Além dela, a dublagem, a atmosfera de tristeza implícita construída até aqui, junto com o enquadramento do ambiente e o silêncio, despejam as emoções do personagem e transformam o momento no principal eixo da personalidade da pequena, a tristeza.
No segmento posterior a este o cortador encontra dentro de um bambu um pote de pepitas de ouro, dias depois de dentro de outro voam tecidos caros, ele interpreta isso como uma mensagem dos céus para que ele dê à sua filha o status de princesa, assim ele constrói uma mansão da cidade e eles se mudam para lá. A inocência da criança não a deixa perceber o que havia acabado de deixar para trás, mas aos poucos a tristeza toma conta de seu cotidiano.
Aqui um ponto importante, o uso de dramatização como tentativa de construção forçada do personagem é uma técnica muito comum. O uso de plots exageradamente dramáticos e, usualmente, sem profundidade como tentativa de aproximação rápida com o espectador. Claro, isso não cabe aqui, essa não é uma dessas animações, ao contrário, o drama é, sim, parte integrante da trama e é construído parte à parte desde o começo, utilizando todas as suas linguagens para tal. Da criança sorridente à adolescente deprimida, a trajetória de Kaguya passa por diversos pontos, e a progressão da sua personalidade se dá por consequência de sua história, e não o oposto, ou seja, a história não é uma desculpa para sua personalidade final. Sendo assim o espectador é transportado para a vida curta de menina e acompanha-a em um caminho de tristeza.
Obviamente não é só o roteiro e o texto que constróem-na tão bem, a linguagem corporal, carro chefe dos dois mestres do estúdio, representa um ponto fortíssimo. Diversos fatores contribuem para uma boa expressão corporal, mas é a mímese, a análise e reprodução da realidade que nos cerca, que é a origem da qualidade. Na análise de Tonari no Totoro , no item “Do Especialista em Animação”, foi discorrido o mesmo que é válido em kaguya, ambos amigos de estúdio utilizam a mimese da gesticulação humana aliada à animação e, principalmente nesse caso, ao design. Uma imagem pode explanar muito bem isso, nesse caso uma série delas, um gif, embora neles não sejam possíveis capturam a incrível dublagem do cortador de bambus, que completa eximiamente o momento.



Música e Poesia

A trilha sonora com certeza é um de seus grandes pontos, suas melodias simples de ritmo lento são o silêncio musical ajuda na imersão no que a obra faz de melhor. Elas podem mesmo passar despercebidas em determinados momentos. Entretanto, existem duas canções que se destacam das outras, são elas Warabe Uta, com sua variação Tennyo Uta, e Inochi no Kyoku. Ambas compartilham de mensagens muito parecidas, mas são aplicadas em momentos diferentes.
A primeira, Warabe Uta, é uma canção baseada em cantigas infantis cantadas em brincadeiras, escrita por Isao Takahata e Riko Sakaguchi, ela tem um estilo muito semelhante à abertura e ao encerramento de Tonari no Totoro, todavia aqui o objetivo é diferente, ao contrário da felicidade inocente, aqui o que paira no ar é a melancolia. A primeira vez em que esta música aparece é na cena citada, em que Takenoko canta com as crianças, ela continua Warabe no Uta com uma letra diferente, sua variação. Ela é cantada com a voz triste e profunda da dubladora, à capela. Como já dito, ela entrega à que veio o filme, em um momento de tristeza não dependente diretamente de complicações de roteiro, a partir daí ela é usada sempre que há lembranças do passado, para marcar o momento com um elemento que já foi associado à vivência no campo e à melancolia, um leitimotiv. Quanto à sua letra, ela é o segundo motivo pelo qual a música traz esse sentimento, e é nela que está inserida a reflexão. Podemos notar isso em seus versos:

Warabe Uta
.
Maware maware maware yo mizu kuruma maware
Mawatte ohisan yonde koi
Mawatte ohisan yonde koi
Tori mushi kemono kusa ki hana
Haru natsu aki fuyu tsurete koi
Haru natsu aki fuyu tsurete koi
.
Maware maware maware yo mizu kuruma maware
Mawatte ohisan yonde koi
Mawatte ohisan yonde koi
Tori mushi kemono kusa ki hana
Saite minotte chitta to te
Umarete sodatta mizu kuruma mawari
Senguri inochi ga yomigaeru
Senguri inochi ga yomigaeru

Gira, gira, gira
Roda de água, gira
Gire e chame o senhor sol
Gire e chame o senhor sol
Pássaros, insetos, bestas
Grama, árvores, flores
Traga a primavera, o verão, outono e inverno
Traga a primavera, o verão, outono e inverno
.
Gira, gira, gira
Roda de água, gira
Gire e chame o senhor sol
Gire e chame o senhor sol
Pássaros, insetos, bestas
Grama, àrvores, flores
Flor, frutifique e morra
Nasça, cresça e morra

É bastante evidente, ainda mais conhecendo a história do autor, sobre o que fala a cantiga. Na primeira estrofe, os quatro primeiro versos trata do passar do tempo, da vida que corre, que gira, para todos, para qualquer criatura viva, pássaros, insetos, bestas, grama, árvores, flores, eles que representam a segunda mensagem, a beleza do mundo. Então nos dois últimos versos, conclui-se dizendo o que já era implícito, o tempo passa, você nasce, cresce e morre. A versão Tennyo Uta continua o pensamento introduzindo significado ligado à outra parte do plot também:

Maware megure megure yo harukana toki yo
Megutte kokoro o yobikaese
Megutte kokoro o yobikaese
Tori mushi kemono kusa ki hana
Hito no nasake o hagukumite
Matsu to shiki kaba ima kaeri komu

Vá girando, venha girando, girando
Ó tempo distante
Venha girando, chame meu coração
Venha girando, chame meu coração
Pássaros, insetos, bestas
Grama, àrvores, flores
Me ensinem como sentir
Se eu ouvir que você anseia por mim, eu retornarei para você

Esta estrofe adicional se refere à música alterada que a protagonista ouvia de outro deus que havia estado na Terra, porém, também se refere ao que vêm após a morte,, à saudade da beleza da existência terrena. Isso é reafirmado durante várias partes do filme, como música aparece novamente no tema de encerramento Inochi no Kyoku (Quando me lembro dessa vida). Sua letra abaixo:

Esta estrofe adicional se refere à música que a protagonista ouvia de outro deus que havia estado na Terra, uma versão alterada, porém, também se refere ao que vêm após a morte, à saudade da beleza da existência terrena. Isso é reafirmado durante várias partes do filme, por exemplo no tema de encerramento Inochi no Kyoku (Quando me lembro dessa vida). Sua letra abaixo:

Anata ní fureta yorokobí ga
Fukaku, fukaku
Kono karada no hashíbashí ní
Shimikronde yuku
.
Zutto tooku
Nani mo wakaranaku natte mo
Tatoe kono inochi ga
Owaru tokí ga kite mo
.
Ima no subete wa
Kako no subete
Kanarazu mata aeru
Natsukashii basho de
.
Anata ga kureta nukumori ga
Fukaku, fukaku
Ima haruka na toki wo koe
Michi watatteku
.
Jitto kokoro ni
Tomosu jounetsu no honoo mo
Sotto kizu wo sasuru
Kazashimi no fuchi ni mo
.
Ima no subete wa
Mirai no kibou
Kanarazu oboeteru
Natsukashii basho dee
.
Ima no subete wa
Kako no subete
Kanarazu mata aeru
Natsukashii basho de
.
Ima no subete wa
Mirai no kibou
Kanarazu oboeteru
Inochi no kioku de

A alegria que senti quando te toquei
Foi profunda, profunda
E se infiltrou
Em todos os cantos deste corpo
.
Mesmo se eu estiver longe
E não entendia mais nada
Mesmo quando chega a hora
Para esta vida terminar
.
Tudo de agora
É tudo do passado
Nos encontraremos de novo, tenho certeza
Em algum lugar nostálgico
.
O calor que você me deu
Profundo, profundo
Vem para mim agora, completo
De um tempo passado
.
Firmemente no meu coração
As chamas da paixão iluminam
E suavemente acalmar minha dor
Até as profundezas da minha dor
.
Tudo agora
É esperança para o futuro
Vou me lembrar, tenho certeza
Em algum lugar nostálgico
.
Tudo de agora
É tudo do passado
Nos encontraremos de novo, tenho certeza
Em algum lugar nostálgico
.
Tudo agora
É esperança para o futuro
Vou me lembrar, tenho certeza
Quando eu lembro desta vida

Escrita e interpretada por Kazumi Nikaido, uma budista moradora de um templo em Kyoto. A filosofia da religião é bastante óbvia nas letras, assim como em várias partes do filme. A parte instrumental serve de base para algumas OSTs, com um princípio parecido com o usado em Warabe Uta, só que ao invés de introduzir, ela encerra o desenvolvimento. Os versos que, talvez, melhor representem as duas mensagens, são os presentes no quarta e nas duas últimas estrofes. Mesmo que a letra pareça romântica, um olhar atento e percebe-se sua ligação com a reflexão proposta pela adaptação. Ela encerra, de maneira tocante esta peça de arte.
Essas duas canções são a demonstração mais explícita do conceito: “viva a vida, ela é bela, porém curta”. A maneira com que a história original foi adaptada reforça essa interpretação, a vida de Kaguya passa mais rápido do que o normal, e seus momentos de felicidade são ainda mais, apenas sua infância valeu a pena, o resto de seus dias na terra foram devorados por um ideal social de felicidade , cercado por riquezas. A vida que queria experimentar na Terra foi engolida, pouco tempo de alegria e então apenas o sofrimento seguido de uma “morte” precoce, de volta à Lua.
Pode-se dizer sim “mas essa é uma mensagem muito comum”, realmente, porém não executada dessa forma, com tantas bases de sustentação, tantas boas bases.

Flor, frutifique e morra

Paku-san com certeza foi uma que deu origem a um dos frutos mais ricos na história da mídia, seu último antes de uma morte triste aos seus 82 anos. Kaguya-hime no monogatari é uma obra incrível em diversos pontos, a carga emocional e estética são usados com a maestria de um gênio que se renovou até seus últimos dias. Intencional ou não, o que torna essa história trágica ainda mais triste é saber que o velho senhor fala sobre a beleza e a fugacidade do que viveu logo antes de deixar o enorme buraco, irreparável, no mundo da arte. Deixou para trás renovação dos métodos de animação e da cultura japonesa, seu legado, a semente deixada por esse fruto, cultivá-la é tarefa dos que estão por vir. No fim: Vou me lembrar, tenho certeza, quando eu lembro desta vida.

Wakare, Takahata-san (1935 - 2018)

95 /100
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